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A jornada de volta

O caminho de volta para casa ia ser longo, já sabia.
Acordei antes do sol aparecer no horizonte, tomei um demorado banho, me vesti e coloquei as últimas coisas dentro das malas (tarefa um tanto quando árdua, já que elas estavam extremamente cheias, do tipo que tem que sentar em cima pra fechar e puxar dos dois lados pra conseguir fazer o zíper andar).
Tomei meu último café da manhã junto à aquela família, pensando que seriam os últimos momentos naquele lugar.
Esperei pelo ônibus perto da minha casa, minha “host mother” me levou até lá. Durante o caminho conversas em clima de despedida, recordações, histórias. Ela me deixou lá e partiu, daquele seu jeito meio frio, incessível. Me senti uma manteiga derretida por estar com aquele sentimentozinho de aperto no coração. Entrei no ônibus com lágrimas nos olhos e não pude evitar o turbilhão de pensamentos que me acometiam.
Uma sensação de dever cumprido, de ter passado por tantos desafios com tanta facilidade e uma gratidão enorme por ter dado tudo certo. Era hora de voltar pra casa e rever todo mundo que eu deixei com saudade. Ao mesmo tempo, era extremamente ruim pensar que talvez estaria pisando naquele lugar pela última vez, aquele lugar que conquistou meu coração e se tornou minha segunda casa.
Fui apreciando cada paisagem e guardando todas as imagens na minha recordação.
A viagem durou duas horas, como previsto. Assim que desci do ônibus, um sujeito me ofereceu o serviço de táxi, e como tinha duas malas enormes e mais uma de mão, essa era a única alternativa. Ele pegou minhas malas e colocou dentro de uma Kombi. O motorista, porém, era outro. Não sabia falar inglês e tive que mandar todo o turco que tinha aprendido durante os dois meses lá. Ele, entretanto, foi irredutível no valor da corrida. Quando pedi um desconto e falei que estava cobrando muito caro ele quase parou o caro e falou para eu procurar outro taxista. Fechei a cara e aceitei o valor, afinal de contas não dava pra ficar rodando com tudo aquilo de bagagem.
O motorista percebeu meu descontentamento e começou a puxar papo. Entendia metade do que ele perguntava e ele entendia um décimo do que eu respondia, mas conseguimos manter algum diálogo por mímica. Quando chegamos no aeroporto, ele deu a entender que não tinha a certificação necessária para atuar como taxista e pediu que, caso necessário, eu afirmasse que ele era um conhecido prestando favor. Tive que pagar escondidinho e aproveitei para chorar um desconto já que ele estava me devendo um favor. Ficou por isso mesmo e ele foi embora.
Entrei no aeroporto com aqueles trambolhos de malas. Encontrei outros intercambistas que também viajariam naquele dia. Ficamos conversando esperando a hora dos check in. Assim que deu o horário fiz questão de ir até lá para me desvencilhar de todas aquelas malas e um amigo turco de um dos intercambistas fez questão de me acompanhar.
Quando cheguei no balcão, a surpresa:
Uma mala com 26 e outra com 31kg. Ri, soltei aquela piadinha clássica do “isso pq foram só 3 meses, imagina se fosse 1 ano?”.
Mas não colou, o balconista olhou para mim e soltou: Você pode carregar 20kg, totalizando as duas malas.
Ainda despreocupada, perguntei o quanto pagaria a mais para levar todas elas. A resposta: 20 euros por cada kg. Totalizando 740 euros.
Meu mundo caiu. Quase morri. Minha cara foi lá embaixo.
Chorei, pedi pelo amor de Deus, mas ele foi irreditível.
Falei que voltaria, saí de perto do balcão e começei a pensar nas possibilidades. Não teve outro jeito. Liguei pra minha mãe e contei toda a história. No Brasil eram 6h da manhã e ela acordou assustada.
Falei com ela da possibilidade de deixar uma das malas pra trás. Mas minha mãe fazia questão que eu levasse pra casa tudo que eu havia comprado.
Ela então foi até o banco mais próximo e depositou dinheiro suficiente na minha conta para que eu pudesse pagar. Isso demorou uns 30min. Depois, fui sacar. O problema, sabe-se lá por quê, era que todos os caixas que experimentamos não saia mais do que 100 liras de cada vez. Ficamos, eu e o turco, correndo pelo aeroporto, com o carrinho lotado de malas, de um caixa para o outro tirando de 100 em 100 liras. Faltava somente alguns minutos para terminar o check-in e tinhamos conseguido 600 e pouco. Fomos até a casa de cãmbio, trocamos o que tínhamos e subimos correndo até o balcão.
Chegando lá expliquei que peguei tudo que consegui, mas que o cartão estava dando defeito.
Mais uma vez, o balconista foi irredutível.
Puxei o carrinho para o lado e já estava começando a tirar os plásticos e abrir a mala para extrair algumas roupas e diminuir o peso, quando o gerente da compania aérea chegou perguntando o que estava acontecendo. Expliquei a ele e o gentil homem aceitou que eu pasasse com alguns quilinhos a mais.
Foi a salvação.
Saí correndo para o portão de embarque sem nem dar tempo de me despedir do turco, que me ajudou correndo de um lado pro outro.
Embarquei com a sensação de ser uma besta, carregando um tanto de mala.
Para mim, eu podia carregar em cada mala 32kg. O problema era que isso era de Veneza até o Brasil, e não de Istambul até Veneza.
Quando aterrisei na Itália, a primeira coisa que fiz foi perguntar se realmente poderia levar 32hg em cada mala. E pro meu alívio, eu podia.
Fiquei aliviada.
Fui então tirar alguns euros pra poder pagar um lanche e um hotel para passar a noite. Tirei o cartão da bolsa e fui até o caixa.
Meu saldo estava zerado.
Tudo que tinha foi embora com o exesso de bagagem.
Não tinha mais dinheiro nenhum.
Também não ia ligar pra minha mãe novamente e deixá-la ainda mais preocupada. Resolvi passar a noite no aeroporto, com fome.
Por sorte, tinham R$100,00 na minha carteira, sabe-se lá por quê. Fui na casa cambial desacreditada de que eles pudessem trocá-lo, mas eles conseguiram.
Deu 30 euros. O suficiente para um pedaço de pizza e uma coca-cola, e ainda sobraria alguma coisa.
Pois bem, alimentada, deitei num banco do aeroporto, que a essa altura já estava vazio, e dormi, com os pés em cima das malas.

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